Saúde sexual no contexto da sexualidade

Atualizado: 18 de jan.

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Ao analisarmos a influência que a sociedade exerce no desenvolvimento da nossa personalidade e, da mesma forma, ao considerarmos em como a construção dos “papeis sociais” são determinantes no desenvolvimento saudável da sexualidade, temos a necessidade de considerar a saúde sexual em seu aspecto mais amplo, englobando todos seus aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Temos, então, que a quebra da harmonia dessa cadeia biopsicossocial de normalidade sexual evidencia, segundo a Associação Americana de Psiquiatria – APA, “uma perturbação clinicamente significativa na capacidade de uma pessoa responder sexualmente ou de experimentar prazer sexual” (DSM-5, 2014).


Este artigo contém:


O que se deve entender por saúde sexual Uma abordagem positiva a respeito da saúde sexual Uma mensagem para levar para casa


O que se deve entender por saúde sexual


A saúde sexual hoje é amplamente entendida como um estado de bem-estar físico, emocional, mental e social em relação à sexualidade. Assim sendo, ela abrange não apenas os aspectos da saúde reprodutiva (métodos contraceptivos, gravidez não planejada, aborto), disfunções sexuais, abusos e violências sexuais. A saúde sexual requer uma abordagem positiva e respeitosa da sexualidade e das relações sexuais, bem como a possibilidade de ter experiências sexuais prazerosas e seguras, livres de coerção, discriminação e violência e que possam contribuir para o bem-estar e saúde física e mental das pessoas (OMS, 2002).


Saúde sexual é definida em um contexto bem amplo, entretanto, ao ver ou ouvir essa expressão, o senso comum a reduz à palavra sexo. No entanto saúde sexual é muito mais do que o ato sexual já que a saúde sexual envolve uma ampla gama de expressões de intimidade com fortes componentes biopsicossociais. Para um melhor entendimento citarei alguns, sem contudo pretender abranger a totalidade que esses fatores representam:


Fatores biológicos na saúde sexual


Cuidados de saúde sexual e reprodutiva


A assistência à saúde sexual e reprodutiva inclui experiências relacionadas e/ou acesso a serviços de saúde médica relativa às áreas sexuais e reprodutivas onde se destacam, por exemplo: DSTs e HIV, exames periódicos, teste de gravidez, controle de natalidade, aborto, parto, assistência a transgêneros, etc.

As abordagens terapêuticas relativas à saúde sexual envolvendo disfunções sexuais e/ou inadequações sexuais, com efeito, devem ser realizadas por profissionais especializados em terapia sexual, após descartadas todas as evidências fisiológicas associadas ao processo disfuncional.


Reprodução


A reprodução está relacionada aos órgãos reprodutivos, puberdade, menstruação, menopausa, gravidez, nascimento, adoção e paternidade. Por certo isso inclui tentar evitar a gravidez, o controle da natalidade, a dificuldade de engravidar, o uso de tecnologias reprodutivas, aborto espontâneo ou não e perda(s) de filho(s).


Anatomia sexual e reprodutiva


Anatomia Sexual e Reprodutiva tem a ver como as partes sexuais e reprodutivas do nosso corpo funcionam, incluindo, dessa forma, qualquer cirurgia baseada em gênero e sendo intersexual.


Nosso corpo


Nosso corpo é o veículo pelo qual nos conectamos com o mundo externo, interagimos com o ambiente e com as pessoas. É através do nosso corpo que expressamos nossa interioridade – pensamentos e sentimentos – e manifestamos nossas emoções e afetos.

Temos então que, ao aplicar nosso potencial sobre os pontos fortes da saúde pessoal estaremos criando uma proteção contra doenças físicas e mentais e abrindo caminho para uma saúde sexual igualmente positiva.


Fatores psicológicos que influenciam a saúde sexual


Imagem corporal


Por imagem Corporal devemos entender a forma como alguém vê, o que sente e acredita sobre seu corpo.


Orientação sexual


Orientação sexual, ou melhor definindo, orientação afetivossexual diz respeito à sensação interna de que temos a capacidade para nos relacionarmos amorosa e sexualmente com alguém. Dessa forma e dependendo do gênero (masculino ou feminino) por quem desenvolvemos essa atração e laços afetivos, podemos subdividir a orientação afetivossexual em: heterossexual – Quando a atração e laços afetivos estão voltados para alguém de outro gênero; homossexual – aqui os laços afetivos estão voltados para alguém do mesmo gênero; bissexual – atração voltada para ambos os gêneros e, por fim assexual – Quando não existe atração por nenhum gênero.


Identidade de gênero


Identidade de gênero é a sensação que a pessoa tem em pertencer ao gênero masculino ou feminino, ou seja, é a forma com que a pessoa se percebe e se identifica.


Autoestima sexual


Autoestima sexual tem a ver em como alguém se vê, bem como o que sente e acredita sobre si mesmo como ser sexual.


Prazer


O prazer é a nossa capacidade de receber e experimentar a satisfação sexual, seja físico ou mental.


Fatores sociais


Experiências de violência e coerção indesejadas


Experiências de violência e coerção indesejadas incluem abuso sexual, agressão sexual, não consentimento, dinâmica de poder abusivo, assim como legalidades e capacidade de vivenciar o ato sexual sem intimidação, medo de violência, violência real em relação à vida sexual pessoal e/ou trabalho sexual. O termo “indesejado” é usado para diferenciar quando a violência é indesejada e abusiva contra aqueles que podem se envolver em atividades sexuais com algum nível de dor e/ou brincar com poder (BDSM) , mas estão fazendo isso em um ambiente de consentimento e desejo mútuos.


BDSM – Conjunto de práticas consensuais envolvendo bondage e disciplina, dominação e submissão, sadomasoquismo e outros padrões de comportamento sexual humano relacionados.


Consentimentos e limites


Consentimento e limites inclui tópicos como idade legal, consentimento e limites pessoais. Também inclui saber dar e receber consentimento, bem como saber reconhecer quando o consentimento não é dado, implícita ou explicitamente e como se comportar quando o consentimento não é dado.


Relacionamentos e intimidade


É a parte da saúde sexual que reconhece os diferentes tipos de relacionamentos e sua dinâmica e que, dessa forma, nos permite reconhecer quando o relacionamento é útil e saudável ou, ao contrário nos é prejudicial. Assim temos que a intimidade é uma parte sensível nos relacionamentos e não necessariamente tem a ver com sexo.


Atividades sexuais


Atividades sexuais são os tipos de coisas que fazemos sexualmente e as comunidades sexuais às quais podemos pertencer. Há uma ampla gama de atividades sexuais, e o que é agradável e prazeroso varia de pessoa para pessoa.


Uma abordagem positiva a respeito da saúde sexual


Analisamos a saúde sexual em seu contexto biopsicossocial e vimos sua importância para a saúde geral e o bem-estar das pessoas. Agora vamos entender por que a saúde sexual requer uma abordagem positiva e respeitosa em relação a sexualidade, sem a qual, segundo a OMS, ela não pode ser definida, compreendida ou implementada.


A sexualidade é inerente à própria vida e se expressa na forma de energia motivadora através da qual se torna possível ao ser humano vivenciar o amor, o contato e a intimidade, sendo estes igualmente expressões na forma de energia.


Esses três elementos, consubstenciados sob a forma de sexualidade, são os pilares dos relacionamentos interpessoais harmoniosos. Passemos a análise de cada um deles elementos:

Primeiro elemento – Amor


O amor é o pilar central de toda relação. É a força de atração responsável pela união das pessoas e o elemento fundamental na criação dos núcleos sociais dentro dos ciclos da vida. Ao expandir nossa energia motivadora para além de nosso corpo, entramos em sintonia com a mais nobre das energias, que é a energia do amor.


Único na essência porém variado em sua acepção, amor é uma das palavras que provavelmente possui as mais variadas definições, talvez por serem nossas experiências com ele tão intensas. Dentre as abordagens existentes e a título de maior elucidação, vamos considerar as três que mais coadunam com o sentido que lhe é atribuído na conceituação da sexualidade humana, apresentada na seção seis, e aqui considerado como pilar central dos relacionamentos interpessoais harmoniosos. Vejamos cada um deles:


Amor incondicional


É o espírito de solidariedade e compaixão que temos pela vida (pessoas, animais e natureza). Nas escrituras bíblicas temos a expressão máxima do amor incondicional em “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que este”.


Amor fraterno

É o amor virtuoso e desapaixonado. inclui lealdade aos amigos, família e comunidade, e exige virtude, igualdade e lealdade.


Amor romântico


É o amor da paixão que une os casais numa relação afetiva. Para uns é o amor “Eros”, que estabelece a atração física. Segundo Freud é a “energia que impulsiona a vida”. Do mesmo modo podemos entender o amor romântico como a união das forças de atração e expansão, pelas quais somos impulsionados em direção ao florescimento e transcendência.


Segundo elemento – Contato


O contato diz respeito à condição eminentemente social do ser humano. Isso porque Somos seres sociais que prosperam em relacionamentos pessoais quando em contato com outras pessoas. Dessa forma, o ambiente ao qual convivemos e o grupo ao qual pertencemos exercem forte influência na forma como sentimos, pensamos e nos comportamos. Igualmente esses grupos sociais nos fornecem uma parte importante da nossa identidade e, mais do que isso, nos ensinam um conjunto de habilidades que nos ajudam a viver de forma mais plena.


A sensação de pertencimento e sentir-se socialmente conectado, especialmente em um mundo cada vez mais virtual, é mais importante do que nunca. Essa conexão social diz respeito à experiência subjetiva de nos sentir compreendido e conectado a outras pessoas. Por certo, isso ajuda a melhorar nossa qualidade de vida e melhorar nossa saúde física. Para a saúde mental, o contato social contribui para maior sentimento de pertencimento, propósito, maiores níveis de bem-estar, níveis reduzidos de estresse e autoestima e confiança melhoradas. Temos, então que formar relacionamentos fortes e saudáveis ​​com outras pessoas significa se abrir, ouvir ativamente e compartilhar ideias, pensamentos e sentimentos.


Terceiro elemento – Intimidade


Embora possa conotar a ideia de sexo ou amor romântico, a intimidade, dentro do contexto da sexualidade, se apresenta em sua acepção ampla ao se referir à relação estreita no convívio próximo entre pessoas, não se restringindo ao contexto sexual, que é uma de suas formas. Intimidade e sexo estão relacionados, mas não são a mesma coisa. É possível ter um sem o outro.


A abordagem sobre a intimidade é extensa e existem estudos e classificações para vários tipos de intimidade. Dentro do nosso contexto nos restringiremos a quatro tipos de intimidade. Vamos analisar cada uma delas:


Intimidade Física


Essa é a forma de intimidade que a maioria das pessoas imagina ao ouvir a palavra. Envolve toques, abraços, mãos dadas, beijos e pode envolver ou não sexo ou relação amorosa. Duas amigas podem se abraçar, beijar, andar de mãos dadas na rua e serem apenas boas amigas que nutrem amor fraterno entre si. Por outro lado, a intimidade física é crucial para os relacionamentos românticos saudáveis ​​e duradouros. Devemos ser capazes de nos tocar para experimentar a intimidade física.


Intimidade emocional


Enquanto a intimidade física é demonstrada pelo toque físico, a intimidade emocional é demonstrada por meio de gestos, atitudes e palavras. Isso nem sempre é fácil, pois requer vulnerabilidade. Envolve a percepção de proximidade com outra pessoa que permite o compartilhamento de pensamentos e sentimentos com expectativa de compreensão e apoio. A intimidade emocional depende da confiança e envolve compartilhar nosso eu mais profundo com outra pessoa.


Intimidade sexual


Aqui estamos falando essencialmente de sexo. É quando as pessoas se envolvem em atividades sensuais ou sexuais. Quando as pessoas usam a palavra “intimidade”, geralmente estão se referindo a esse tipo de intimidade (sexual). Muitas pessoas e casais tendem a considerar intimidade sexual como sendo sinônimo de intimidade amorosa. Nessa generalização, é comum encontrarmos relacionamentos em grave processo de desarmonia tendo por base esse entendimento equivocado.


Nossa experiência clínica mostra que essas pessoas, ao apresentarem dificuldades em responder sexualmente ou de experimentar prazer sexual em função de fatores relacionados à falta de harmonia na cadeia biopsicossocial, discutida na seção três, tendem a desfazer o relacionamento por acreditar que a inapetência sexual seja indicativo de falta de amor, não se justificando, portanto, a manutenção do relacionamento.


Intimidade amorosa


Em um relacionamento romântico, o casal tem a oportunidade de vivenciar a sexualidade em sua amplitude ao congregar as energias do amor e da intimidade, envolvidos numa conexão positiva. A intimidade amorosa se constrói ao longo do tempo e, como energia (emissora e receptora), natural do ser humano, não se restringe aos órgãos sexuais. “Não é sinônimo de coito e não se limita à presença ou não de orgasmo”.


A intimidade amorosa dentro de um relacionamento conjugal pressupõe a conexão harmônica dos três pilares que, associados a uma conduta assertiva nos gestos, atitudes e palavras, possibilite a ambos expressarem livremente seus pensamentos, sentimentos, ideias, desejos e fantasias.


Contudo, presos às concepções equivocadas, mitos, tabus ou preconceitos em relação ao sexo e como forma de suavizar o impacto que a palavra “sexo” representa, ainda na atualidade, muitos casais dizem “fazer amor” ao se referir ao ato sexual. Seria como se intimidade amorosa e intimidade sexual fossem a mesma coisa. O sexo pode ser uma expressão da força do amor, entretanto amor não é sexo. Temos assim que o impacto desse eufemismo nos relacionamentos pode ser devastador.


Na presença de uma disfunção ou inadequação sexual, por exemplo, além da comum inapetência, a pessoa pode apresentar esquivas em relação às manifestações sexuais do par e isso poderá configurar para o cônjuge clara demonstração de “falta de amor”. Assim, a partir deste ponto, sentimentos de insegurança, culpa, desconfiança e manifestações de ciúme e outros vícios emocionais costumam deteriorar o relacionamento e a saúde sexual do casal.


Uma mensagem para levar para casa


O sexo, enquanto energia inerente à própria vida, é força criadora responsável pela preservação da vida no planeta, mas a prática da relação sexual não tem apenas a finalidade reprodutiva. Por certo, dentro de um ambiente de cumplicidade, assertividade e comunhão, essa união sexual fortalece a intimidade, engrandece o amor, consolida a relação em uma união de qualidades, proporcionando prazer, satisfação e bem-estar para a vida íntima do casal.


Referências:

American Psychiatric Association (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5 (5ª ed.). Porto Alegre: Artmed. Boa terapia (2019, maio). Intimidade. Obitido em https://www.goodtherapy.org/blog/psychped ia/intimacy#:~:text=Sexual%20Intimacy%3A%20When%20people%20engage,other%20prefers%20to%20be%20touched Cavalcanti, R., & Cavalcanti, M. (2019). Tratamento clínico da inadequações sexuais (5a ed.). São Paulo: Paya. Word Health Organization (2006ª). Defining sexual health and Sexuality. Obtido em https://www.who.int/reproductivehealth/topics/sexualhealth/ shdefinitions/en/

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